Desde que me entendo por gente eu inventava ser outras pessoas, situações e sonhos que eram mais realidade que sonhos. Achava que estava tudo ok em fugir do que eu realmente era e criar universos alternativos onde eu fosse mais legal, bonita, extrovertida e reconhecida. Era meu mundo próprio de ser várias e conversar sozinha com as outras várias pessoas com quem eu não tinha coragem de trocar uma palavra no mundo real. Na fantasia eram todas minhas amigas e eu era especial.
A verdade é que sempre fui muito sozinha e ainda sou, a diferença é que com o tempo eu parei de conversar com quem eu queria ser e comecei a prestar mais atenção em quem sou de verdade. O primeiro impacto dessa perspectiva real não foi muito bom. Primeiramente porque se algum dia eu quisesse ser parecida com os desejos de sucesso que eu imaginava, teria que conversar e eu nunca fui muito boa nisso. Se me dessem uma folha em branco eu poderia criar universos inteiros. Se me dessem um histórico de quem eu realmente sou eu travava, às vezes ainda travo.
Tudo isso acontece porque a fantasia na maioria das vezes não pode virar realidade, eu não poderia me transformar em outra pessoa, acordar com outra cara e outro temperamento, quando eu acordei tive que lidar com o impacto de ser eu. Isso aconteceu depois da morte do meu avô, que coincidiu com o final do ensino médio e todo um horizonte de possibilidades na minha frente. Existia então uma pressão criada por mim mesma de descobrir o que eu viria a ser, que profissão seguiria, que escolhas tomaria e eu achava tudo tão difícil e ao mesmo tão ilimitado que passei, mesmo que inconscientemente, a adiar o futuro. As horas continuavam a correr pelo relógio, a terra fazia sua rota ao redor do sol sem nem reparar que eu havia parado. O mundo continuou mas eu não.
Como era tudo muito vazio, eu comecei me achar muito incompetente para me preencher e pior ainda para ser útil para os outros. Foi quando surgiu uma depressão muito severa em que a melhor saída parecia ser deixar de existir. Eu que antes queria ser várias de repente não queria ser mais nada porque a conclusão fática era que meu corpo e o que eu passava para as pessoas eram um tormento. Comecei uma faculdade de direito em 2010 que até hoje não terminei porque me apavora demais o que irá acontecer depois dela. Passo pelas coisas, pelas pessoas e pelos dias existindo sem tentar viver.
A primeira vez que tive um apagão não lembro nem do que aconteceu depois que acordei, só sei que deixou minha família assustada suficientemente para procurar um psiquiatra e desde então comecei a vagar de um profissional para outro que me enche de remédios e a ocasionalmente tentar "desesistir". Teve uma época que as pessoas do hospital já sabiam quem eu era e eu podia falar até quem eram os enfermeiros de plantão, e apesar de tudo, de ter parado de viver, eu percebi que as pessoas que me amavam não aceitavam me perder, mesmo não valendo nada.
Então ao invés de continuar parada eu tentei procurar um propósito que ainda não encontrei, mas sei que esttá por aí. Percebi também que eu valia muito para quem estava por perto e me conhecia de verdade, e que além de me amar incondicionalmente elas me admiravam pelo que eu conseguia passar quando estava acordada o suficiente para viver. Não posso falar que me transformei ou ressurgi, eu ainda estou chafurdando as cinzas e a depressão é uma visita que não vai embora fácil, mas eu descobri que olhando pela ótica quem nos ama, percebemos como nossa vida é valiosa e bonita e que pode ser boas se a gente tentar de verdade.
Também não posso dizer que comecei a tentar, eu faço tentativas de tentar mas o sono ainda é mais forte, talvez existam receitas e orações para levantar dos "mortos" que não seja na forma de um zumbi que só faz o caminho cozinha-cama-banheiro-cama, eu não conheço nenhuma, mas sei que existem, e que um dia vou conhecer ou inventar.
Outra coisa que eu descobri é que tudo que habita essa terra é importante demais. Tudo, todos, plantas, pessoas, carros e cachorros, tudo é fruto de uma força tão poderosa que nos impeliu a viver e sentir, talvez os únicos seres conscientes de que sentem em quilômetros luz de distância. Não acho que seja uma coincidência, acho que é uma benção e sou feliz e agradecida por fazer parte disso.
sábado, outubro 31
sexta-feira, outubro 9
O vício
Eu me achava intocável em relação à dependência química, pensei que poderia parar a hora que eu bem entendesse. Fumava e sempre pensava ok, esse pode ser último, mas o último nunca chegava. Até que parei, e passados dois dias eu já estava estressada, com raiva de tudo e todos e sentindo uma falta absurda daquele veneninho que eu inalava pensando que era mais forte que ele.
Quando pessoas entendidas do assunto falam que o cigarro causa dependência, ACREDITE, ele causa, e muita. É muito difícil parar quando aquela coisinha te traz, mesmo que de forma "oculta" um bem estar que só vai gerar mal estar futuro. A sensação de tranquilidade que ele traz é maravilhosa mesmo quando estamos cansados de saber dos riscos.
Muita gente assume o mal inconscientemente como algo que nunca vai atingi-las, da mesma forma que eu pensei que não ficaria viciada. Cigarro é uma grandiosíssima porcaria e eu tenho vergonha por ter me deixado envolver por algo tão sujo.
É difícil parar, requer mais que força de vontade. É preciso paciência e contar todas as horas que você conseguiu passar sem ele para acreditar que conseguirá passar mais uma, e mesmo quando há o desejo sincero de se livrar daquilo, a dor de cabeça e a raiva que a abstinência causam tentam nos empurrar para ele novamente. Além de tóxico ele é um sedutor, daqueles baratos e cafajestes. Não nos deixemos seduzir!
Então eu li uma matéria que falava sobre o vício e que deixava algumas perguntas para o leitor sobre como o cigarro age em sua vida, e são elas que eu vou responder agora.
Como começou a fumar? No aniversário de dezoito anos de um amigo. Nós nos achamos adultos e invencíveis, podíamos fazer uma bobagem como dividir um cigarro sem que isso fosse nos dar prejuízos
Em que circunstâncias? O cigarro era como um grito de liberdade. Olhem pra mim, estou fumando, eu posso fazer isso!
O que fez você continuar fumando por tanto tempo? O vício. E também porque as pessoas que admiro (escritores, artistas, filósofos, todos fumavam. Era como se o cigarro me colocasse nesse grupo).
O que o cigarro te traz? Absolutamente nada
Como está sua vida independentemente do cigarro? Tenho depressão, fobia, ansiedade crônica. Não é a toa que continuei por tanto tempo
Como estão teus relacionamentos? As pessoas que me amam dão força pra que eu pare. Muita. Eles perceberam minha dependência antes de mim
Que objetivos tem para si? Ter uma carreira consolidada e reconhecida, que meu relacionamento perdure, que daqui alguns anos eu possa me sentir realizada
Sente-se feliz? Na maior parte do tempo não. E fumar me deixa de mal comigo.
Apesar de tudo isso parar ainda é uma dificuldade. Consigo por alguns meses e volto, depois consigo por mais uma semana e volto. Pretendo atualizar esse texto ainda este ano falando que me livrei completamente.
A nicotina é encontrada em todos os derivados do tabaco.
É uma droga que age estimulando o sistema nervoso central, fazendo com que ele funcione de maneira acelerada.
Ao inalar a nicotina, através da fumaça do cigarro, ela é absorvida pelos pulmões e rapidamente atinge o cérebro pela corrente circulatória.
No cérebro a nicotina estimula a liberação de uma substância chamada Dopamina, que proporciona imensa sensação de prazer e bem estar ao fumante.
Por esse motivo é que o fumante ao tentar parar de fumar se ressente da falta de Dopamina, da sensação de bem estar na vida.
Esse trajeto da inalação até a liberação de dopamina, dura entre 7 a 19 segundo, tempo somente equivalente à ação da cocaína e heroína no cérebro.
Cada vez que os níveis de dopamina começam a cair na corrente circulatória, imediatamente o fumante acende um novo cigarro, sem se dar conta do ato automático, mantendo sua sensação de bem estar, estando instalada a dependência de nicotina.
Fonte: ROSEMBERG, 2003;INCA; OMS
quarta-feira, junho 11
Eu quebrei meu coração no dia 25 de outubro de 2002. Quando me lembro sempre é como se tivesse sido apenas dois minutos atrás.
Eu sentada num banco tosco de madeira no fundo de casa retorcendo a musculatura dua e os nervos grossos enquanto o sangue escuro escorria invisível por minhas mãos de menina.
Um coração desfigurado não tem conserto, por força somente biológica ele continua a fazer o que lhe convém, bate e bate muito forte dentro de mim. Desde que o quebrei ele nunca mais bateu direito...
Existia uma pequena noção do que era sofrimento antes dessa minha mutilação, a mesma noção que tem um peixe de voar. Nada se compara a dor fria e metálica que é a dor do amor.
Amar dói, e mesmo um coração quebrado ainda sabe amar. Ama torto, desacreditado, doente, mas ama. E sabe doer.
Toda pessoa, todo livro, toda música. Tudo que eu vi e passei nos últimos doze anos me machucou. Sempre fui fechada e me tornei mais ainda, mesmo que aberta ao riso e aos novos amigos. Descobri que um coração partido amolece a alma e a minha se conturbou e se tornou água turva acompanhada de uma agulha arranhando um disco que não toca nada.
Fico surpresa quando aparece alguma coisa que eu gosto e quando eu gosto gosto tanto...
Sorvete.
Madrugada.
Abraço.
Bacon.
Minhas mirradas alegrias que me fazem sobreviver...
Minha mãe.
Minha irmã.
Minha vó.
Sou tão agradecida por todas as pessoas que me aceitam de coração quebrado.
Barulho.
Eu tenho necessidade do barulho mais silencioso que são as palavras. Meu alimento, minha continuação.
Eu nunca vou dar silêncio. quando eu morrer me tapem a boca pra talvez, em outra vida, ter essa virtude.
Silêncio nesta vida, Deus, é covardia - grito dos meus pulmões silenciosos. Covardia.
Eu sentada num banco tosco de madeira no fundo de casa retorcendo a musculatura dua e os nervos grossos enquanto o sangue escuro escorria invisível por minhas mãos de menina.
Um coração desfigurado não tem conserto, por força somente biológica ele continua a fazer o que lhe convém, bate e bate muito forte dentro de mim. Desde que o quebrei ele nunca mais bateu direito...
Existia uma pequena noção do que era sofrimento antes dessa minha mutilação, a mesma noção que tem um peixe de voar. Nada se compara a dor fria e metálica que é a dor do amor.
Amar dói, e mesmo um coração quebrado ainda sabe amar. Ama torto, desacreditado, doente, mas ama. E sabe doer.
Toda pessoa, todo livro, toda música. Tudo que eu vi e passei nos últimos doze anos me machucou. Sempre fui fechada e me tornei mais ainda, mesmo que aberta ao riso e aos novos amigos. Descobri que um coração partido amolece a alma e a minha se conturbou e se tornou água turva acompanhada de uma agulha arranhando um disco que não toca nada.
Fico surpresa quando aparece alguma coisa que eu gosto e quando eu gosto gosto tanto...
Sorvete.
Madrugada.
Abraço.
Bacon.
Minhas mirradas alegrias que me fazem sobreviver...
Minha mãe.
Minha irmã.
Minha vó.
Sou tão agradecida por todas as pessoas que me aceitam de coração quebrado.
Barulho.
Eu tenho necessidade do barulho mais silencioso que são as palavras. Meu alimento, minha continuação.
Eu nunca vou dar silêncio. quando eu morrer me tapem a boca pra talvez, em outra vida, ter essa virtude.
Silêncio nesta vida, Deus, é covardia - grito dos meus pulmões silenciosos. Covardia.
terça-feira, maio 27
Henrique - segunda passagem.
A mulher que me encarava parecia ser mais nova que eu.
Feições delicadas e simples marcadas em uma pele morena que parecia brilhar
mais do que seria natural. Os olhos não brilhavam. Eram de um castanho escuro
denso que nada deixavam transparecer, mesmo que mantivesse um sorriso na boca
desde que os pousara em mim. O arrepio em minhas costas dizia que os lábios
rosados e convidativos guardavam presas, e ela não teria dúvida de usá-las
contra mim.
Convidou-me a segui-la pela rua de pedras quase não iluminada
a não ser por pontos de luz saídos de alguma janela acima de nossas cabeças. A
vida das pessoas ao nosso redor continuava normalmente, quanto a minha, não
saberia por quanto tempo duraria dentro
do corpo. Meus tropeções nas pedras não
lhe causavam nenhuma reação, continuava o caminho escuro como se flutuasse
centímetros acima do chão, e por mais que soubesse que aquela mulher calçava
botas pesadas, tentava com esforço ouvir o atrito delas, tentando fugir da
ilusão qualquer em que ela quisesse me confinar.
Deu uma virada brusca para esquerda onde eu nunca teria
visto caminho, entrando por uma passagem quase fechada cheirando a umidade e barro,
podia sentir as paredes roçando em meus braços enquanto lutava contra o medo
que me subia pela garganta. Olhei pra cima e só vi mais escuridão, o céu não
tinha estrelas ou eu já não pertencia a qualquer lugar coberto por elas.
Enquanto as pedras pareciam se estreitar mais e o ar entrava
com dificuldade por minhas narinas, consegui vislumbrar pequenos pontos de luz
a frente que pareciam sair do nada. Finas flechas de dourado claro suspendiam a
poeira no ar como se fosse dia enquanto a claridade aumentava vindo de todos
os lados, frestas na parede, no chão,
até mesmo de cima. Minha guia parou, uma
silhueta pequena contra a luz, completamente negra.
- Acredito que a partir daqui o senhor conseguirá o que quer
sozinho. Minha tarefa foi cumprida.
A voz dela era melódica e sussurrante, parecia falar mais
para si do que para mim e talvez o estivesse fazendo se não fosse o “senhor”.
- Pensei que as formalidades eram deixadas de lados quando
se dizia os votos. Já não sou nenhum senhor.
- Devo lembra-lo de que ainda não fez voto algum. E avisá-lo
de nunca se esquecer do que é.
Ela aproximou-se de mim, suas mãos pequenas e pálidas
envolvendo as minhas em um aperto morno. Parecia ainda menor do que da primeira
vez que a tinha visto. Talvez não passasse de uma criança, talvez não fosse ser
algum...
- Creio que o senhor se pergunta por que aqui, não?
- Em me pergunto muitas coisas no momento. Mas sim, achei
que seria escoltado e levado pela entrada principal da academia.
- Academia? – ela zombava sem tirar os olhos dos meus,
fazendo com que eu não conseguisse parar de olhá-la. – Não sabe nada sobre o
lugar para onde vai, senhor?
Não me deu chance de responder e quando soltou minhas mãos
um frio intenso pareceu entrar por dentro das minhas vestes, gelando os ossos.
- Sua primeira tarefa: ouvir.
É de fundamental importância que consiga escutar tudo que acontece ao
seu redor. Um suspiro, uma sombra, o silêncio. Você tem que ouvir, senhor.
Chegamos diante uma porta de madeira simples que parecia
existir por uma eternidade antes de mim
e que ainda existiria por uma eternidade depois. A luz lutava pra sair
por entre suas frestas negras, em uma guerra ininterrupta contra madeira e
ferro.
-Entre.
Parei vacilante onde estava enquanto ela se espremia contra
a parede para me dar passagem.
-Entre.
Tentei olhá-la nos olhos mais uma vez, mas a luz não deixava
que visse nada além de sombra. Minha primeira tarefa deveria ser coragem,
alguém deveria tê-los avisado de que não possuía as qualidades tão atribuídas à
minha família. Lembrei-me de meu pai, convalescendo na cama, a meia luz como gostava de ficar, ainda
encontrando forças para me falar antes de minha partida. Era para aquilo que eu
tinha nascido afinal, não era, pai? Pra enfrentar uma porta?
Respirar doía enquanto o ar ficava mais frio, avancei em
direção a maçaneta simples e com o coração saltando do peito, girei.
Não havia nada além do mais puro escuro enquanto sentia a porta
se fechando lentamente atrás de mim. O
negrume era tão denso que eu poderia tocá-lo, apesar de não conseguir ver meus
braços. Minhas mãos tateavam meu próprio corpo como se para ter certeza de que
eu continuava existindo, consegui sentir
minha boca, o nariz, os olhos que de nada serviam.
“Escute” surgiu a voz da moça, de quem nunca soube o nome,
na minha cabeça. “Escute, Henrique”. Não
havia o que escutar, o silêncio era pesado e mortal, sufocava mais que o frio que sentira minutos antes. O
ar entrava com dificuldade por minha garganta ansiando uma crise de pânico que
não tinha há tempos. Meus joelhos encontram bruscamente um chão de pedra bruta
enquanto a escuridão parecia se avolumar para cima de mim, esmagando-me contra
meu próprio corpo. Foi então que eu ouvi um grito engasgado de medo vindo das
profundezas. Um grito que tinha saído de
mim.
sábado, maio 24
Quando dois invisíveis se cruzam
O momento em que eu quero mais ser invisível é quando alguém, por algum motivo não aparente, presta atenção em mim. Sabe quando alguém aleatoriamente esquece os olhos em cima de você, ou te escolhe dentre várias possibilidades pra perguntar as horas? Depois do choque de ter sido vista eu balanço os pulsos no ar mostrando que não ando com relógio até lembrar que carrego as horas no bolso. Maldito seja o celular.
Há ainda o tipo pior que a pessoa simplesmente desconhecida: aquela que se conhece pouco. Geralmente o remotamente conhecido se apresenta com sorrisos nas horas em que o observador estrategicamente invisível, no caso eu, encontra-se em seus piores momentos de raiva, angústia, tristeza ou simplesmente apatia e, como bom observador, você se pega de repente observando que ele está te observando. Hora em que todos os invisíveis queriam um buraco pra se enfiar dentro justamente por serem visíveis.
Digamos, por exemplo, que você tenta se enfiar o máximo possível na parede da porta da festa enquanto espera aquela pessoa que gosta sem tirar o olho do celular, sem descruzar braços e com um cigarro sendo tragado atrás do outro pra não conversar. Você é imperceptível. Você é imperceptível até o momento, aquele doloroso momento do erguer os olhos e eles darem nos olhos do cara na outra esquina, o pseudo conhecido com quem trocou duas ou três palavras no estágio que fez no ano anterior, que também tentava ser invisível, de braços cruzados, cigarro na boca e blusa cinza se confundindo com a parede também cinza e pálida da outra rua.
No momento em que ele olha pra você e abre um sorriso há duas possibilidades, não consigo pensar numa terceira porque precisaria ser menos ansiosa pra tanto. As possibilidades são fingir que continua invisível, olhar pra tudo menos para o descobridor ou se tornar uma descoberta.
Tornei-me descoberta. Quando se aprende a observar e vive-se disso como eu, o brilho nos olhos, o franzir dos lábios, o jeito como joga os braços quando anda, o jeito que passa a mão no cotovelo quando tá parado, tudo isso instintivamente aguça a curiosidade e, meu bem, ser curiosa é maior do que ser anônima.
- E aí, quanto tempo.
Sorriso bonito.
- Pois é, como tá?
Tímido, quase transparente. Dois furos na orelha e anel de coco no dedo anelar esquerdo.
- Bem... (pausa) Então, o que tá rolando aí?
- Rock.
- Mas como é o esquema?
A blusa cinza na verdade é um moletom cinza com as mangas puxadas até os cotovelos. Cadê o seu moletom cinza, porra?
- Paga 15 reais, lá dentro tem bebida e tal, festa normal. Rock anos 80.
- Anos 80?
- É, é temático.
Pessoas invisíveis geralmente são inarticuladas. Eu sou inarticulada. Última tragada do cigarro, ele vai pensar o que se eu já acender outro?
- Legal... (pausa. Inarticulados, lembra?) Eu to com uns amigos ali no bar, quando acabar a gente vem pra cá.
- Vem mesmo, é legal.
Apesar do olhar amigável os meus preferem olhar os carros na rua.
- A gente vem.
- Beleza...
- Até mais então.
- Até.
Meu sorriso é um enrugar de lábios quando imperceptível.
- Bom te ver, moça.
Meu riso sai pelo nariz por causa da boca cerrada. "Bom te ver" fala minha consciência. Nada sai dos lábios.
Ele atravessa a rua voltando a ser invisível, eu volto pro muro sempre invisível. Celular. Meia noite e meia. Subo a rua em busca de um táxi.
Cadê você, porra?
quarta-feira, maio 21
Poeminha pro santo.
Amarrei no pulso fita do Senhor do Bonfim
Pra te desejar três vezes pra mim.
Em qual delas você vem?
Pra te desejar três vezes pra mim.
Em qual delas você vem?
Como um soco no estômago.
Hoje quando saía da padaria
carregando o saco de oito pães de cada dia me permiti olhar além do que meus
olhos estão acostumados a ver. Eles pararam, e não poderia ser diferente, em
uma senhora muita velha ou talvez tenha sido apenas o tempo a vida cruel que
lhe deixaram aquelas marcas, muito magra e muito negra, deitada contra o muro
sujo do prédio logo ao lado. Contra seu corpo havia um cobertor de lã de
aparência pesada e áspera que ela agarrava como fosse um escudo contra o frio e
o mundo. Meus olhos, mal acostumados a olhar a miséria que me rodeia todos os
dias, primeiro focaram no vermelho daquele escudo. Era vivo como sangue que sai
de um corte novo. A lã viva contra o corpo magro rodeado por sacolinhas de plásticos
cortou meu coração em pedacinhos e eu não consegui desgrudar meus olhos dela.
Eram olhos mornos, escuros e desacreditados. Ela se permitiu me olhar também,
mas o que pensou da menina bem agasalhada arrastando os tênis surrados no chão
e levando uma sacola de pães eu nunca saberei. Eram olhos desconfiados que não
permitiam a qualquer pessoa saber o que se passava por trás, evidente estava
apenas a miséria. Ofereci um pão com a voz esganiçada pela vergonha de reclamar
de tudo enquanto ela deveria passar todos os dias por ali, mas invisível. Ela
aceitou cordialmente com a cabeça enquanto eu retirava dois e lhe passava. “Pra
mais tarde” eu disse oferecendo dessa vez um sorriso. “Pra mais tarde não moça,
a gente não sabe quando tem mais tarde. ” Desta vez quem me deu um sorriso foi
ela, sorriso despedaçado e frio mas ainda assim um sorriso. Eu não soube mais o
que dizer então me levantei, acenei um até logo e continuei a andar. Ela ainda
gritou um fique com Deus que eu ignorei enquanto pedia a Deus que ficasse com
ela.
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