terça-feira, maio 31

Baladas do rei do mar

Era só ele um barquinho divagando juntos pelo mar escuro a observar as estrelas no céu, tentando adivinhar a qual constelação pertenciam. Estava deitado de costas sentindo o vento salgado no rosto quando uma onda agitou seus sonhos e o pequeno barco. Ele não se mexeu, continuou deitado, continuou a olhar para as longínquas estrela sem prestar atenção na grande agitação que se fazia nas profundezas das águas escuras.

Por olhar para o céu, não viu quando o senhor das águas emergiu lânguido e luminoso do mar, seu tritão brilhando estranhamente verde. Chamou seu nome mas ele só atentou para isso na terceira vez. Pôs-se de pé cambaleante, as pequenas ondas agitando o barquinho. Olhava com admiração e medo para a figura mitológica repleta de escamas prateadas e de olhos imensamente negros.

Ele estendeu-lhe uma mão como um convite, e sem pensar, sequer uma vez, o homem a agarrou e então foi puxado para o fundo do mar.

Tudo foi um turbilhão, sentia a água passar depressa por seu corpo e seu rosto, primeiro morna e depois imensamente fria. O ar estava agarrado aos pulmões e o medo pulsante de perdê-lo batia no ritmo do coração. Fora em vão e ele sentiu a água azedar a boca e o nariz entrando dolorosamente nos pulmões, cada tentativa de expulsá-la era um novo sopro de dor ao senti-la voltando em jorros para o corpo. A dor era imensa até que sentiu o cérebro anuviar-se e ela se esgueirar vagarosamente do corpo enrugado pelo sal. Estou morrendo, se não morri, estou morrendo. Foi seu último pensamento antes do nada total.

Acordou numa cama de algas que balançavam serenamente, Sentiu o ar entrando vagarosamente pelas narinas machucadas. Estava completamente nu e se dando conta disso sentiu vergonha da própria nudez mesmo sozinho na cama fasta. Havia luz embaixo do mar, luzes de todas as cores brilhando numa serenidade que fazia querer voltar ao sono indolor, então entraram no quarto as sereias, os corpos de mulher, seis fartos e quadris estreitos até onde começava a longa calda escamada do mesmo prata que vira no barco.

Elas riam fartamente e ele logo soube que aquele seria o som mais bonito que ouviria na vida. Não estranhavam de haver ali um homem, um homem exposto, as pernas flutuando bobamente na água clara. Continuavam a rir quando lhe puxaram bagunçando os cabelos negros, fazendo sorrisos brotarem então dos seus lábios. O levaram para um salão em que era impossível saber onde terminava, as luzes sobrenaturais pairando sobre os seres que dançavam em pares, trios, grupos, os risos e a bebida que logo fora lhe oferecida, o vinho mais doce e forte que já tomara, foi levado as danças, a comer de ostras gigantes que apresentavam pérolas imensamente gigantes,

O homem que o levaram enrolava vagarosamente a imensa barba prateada enquanto flutuava observando os festejos, sorriu para ele quando o viu e fez um gesto de aproximação.

Ele foi, já não se importava com a nudez, com os corpos de humanos e peixes que se trançavam em um só. Queria só mais um pouco de vinho, e talvez só mais um pouco depois.

- Você olhava o céu quando a vida acontecia aqui embaixo. É dos humanos procurar o céu, Talvez traga respostas, talvez traga alguém, talvez não traga nada, mas vocês, vocês não deixam de olhar.

O sorriso dele mostrava dentes demais que eram afiados demais, transformando a figura calma em demônio.

-Só aproveite. Não é a todos que a vida dar a dádiva de viver várias vidas em uma só. Viva a deste dia que vai além das horas, viva tudo que quiser, e depois passe para uma nova, pois quem não está nascendo meu rapaz, está morrendo. Nasça todos os dias.

Então ele nasceu no fundo do mar como nascera de sua mãe, puxado das entranhas do dia, sentindo não a dolorosa primeira passagem do ar, mas a da água, puxado  do desconhecido para outro desconhecido e sorriu à vida. Agradeceu à vida e a todas que viveria pela frente.

Quando acordou o barco ainda balançava serenamente sob a luz das estrelas, e inspirou  o ar de uma nova vida pela segunda vez, A água caiu do corpo pingando no convés, e ele embrigado dos sonhos das sereias gritou para vazio: POR TODAS AS VIDAS QUE EU TIVER.

segunda-feira, maio 23

Imagine

Toda vez que se escreve um texto em que, de alguma forma, o autor traça um paralelo entre suas noções pessoais do que é bom e ruim, ou do que é certo e errado, o leitor que se identifica com as colocações do lado “mauzinho” ataca. E ataca com dizeres que demonstram melhor do que o próprio autor porque existe o lado “mauzinho”.

Veja só, a sociedade nunca foi e nunca será fluida, mas também nunca foi e nunca será seu oposto estático. Ela se movimenta com dificuldade e os padrões costumeiros são extintos ou modificados de acordo com as ações dos indivíduos que formam seu corpo, mesmo que essas ações sejam muitas vezes dar soco em parede. Machuca. Dói. Quem dá o primeiro golpe será indiscutivelmente massacrado e dificilmente encontrará alguém para cuidar de suas feridas. Isso é porque lidamos da forma mais covarde, e aqui posso sim fazer tal colocação abrangente, com aquilo que nos é diferente: nós damos as costas, e se por acaso o diferente insistir em chamar nossa atenção, damos nossos punhos, porque a primeira reação de um ser amedrontado é atacar, ainda que não saiba o que está atacando.

As coisas são assim desde que o mundo é mundo, ou melhor, desde que o ser humano é o ser humano, e por mais que a ciência evolua, o comportamento parece ser muito mais engessado, o que de certa maneira é incoerente já que a evolução é inerente à sobrevivência. Ou talvez ela esteja apenas relacionada ao corpo e nunca ao fluxo de pensamentos, e nunca à alma, de modo que seres “evoluidíssimos” possam construir foguetes e matar outras pessoas por não se reconhecerem nelas ao mesmo tempo.

Só que não me importa a evolução biológica, deixo-a a cargo de quem dela entende, o que me interessa e intriga é o comportamento, e mais do que isso, a grande interrogação que vem junto dele brilhando em neon. O que diabos faz o comportamento, o que diabos É o comportamento e por que ele nos limita e nos transcende e devora e decifra ao mesmo tempo.

Até os dias de hoje dentro do meio em que vivo existe uma barreira ao que não se entende ou não se entende muito bem, mesmo que essas barreiras tenham suas bases em conceitos muitas vezes preconceituosos. Vou dar um exemplo clássico: crianças que porventura tenham algo que as diferencie do “comum”.

Existe um pânico irracional dos adultos de não saber lidar como que não lhes é conhecido. Eu tenho uma prima de seis anos que tem um coleguinha autista. Não o conheço, mas sei que ele está lá nas fotos da turma, nas festinhas, nas brincadeiras e se nunca tivessem falado “olha, um menino autista!” como se um et tivesse se materializado na sala da minha prima eu nunca saberia da sua condição. O curioso é que nem ela sabia, e até hoje ela pouco se importa, não faz diferença para ela, faz diferença para os pais, para a família, para a professora. Eu lembro até hoje como foi dada a “notícia”: vocês sabiam que na turminha de Fulana entrou um menino autista? Pois é, AUTISTA, não sei como vai ser pra professora e pra eles, mas talvez seja algo leve, né?

A família dela nunca procurou saber nada sobre o autismo, nem mesmo o que seria um autismo leve, mas ficou no ar um amargo por saber que uma pessoa “diferente” estava convivendo com os filhinhos normais e perfeitos. Um amargo provocado por uma criança.
Se esse caso é capaz de provocar nas pessoas um instinto de proteção que os deixa pronta para o ataque a essa situação nova, imagine você o que várias pessoas diferentes, crianças ou não, podem provocar.

Imagine uma senhora de oitenta anos que resolve namorar.

Imagine um cadeirante que ame dançar.
Imagine um homem que tenha vontade de casar. Com outro homem. Por amor.

Imagine uma criança que tenha síndrome de down e goste de brincar com outras crianças independentemente do número de cromossomos.

Imagine um negro da favela ser seu colega de faculdade.

Imagine.

Por que quem foge do padrão não pode viver o que você vive? Não machuca, não mata, nem engorda, não impede a felicidade e o prazer de ninguém, então por que a gente acha que tem o poder de impedir a vida de ser vivida?

Quem definiu o que é o certo e o que é o errado além do nosso ponto de vista? Se quem o define são nossas atitudes e escolhas e consequentemente a maneira como enxergamos o mundo, por que não podemos acrescentar no nosso mundo coisas novas e engrandecê-lo, colori-lo?

Por que tornar ruim o que pode ser bom?

quinta-feira, novembro 12

Ler - pensar - refletir - pesquisar - opinar

Acho que nunca se escreveu tanto como na atualidade, dos anos 2000 - 2015 (será que  esse texto vai ficar perdido vagando pelo universo internético e um dia ser lido no futuro? Enfim, minha atualidade é essa aí), mas por outro lado nunca se soube tão pouco. Veja só, nós temos o mundo a poucos cliques de distância, sério, ele tá ali, lugares, pessoas, conceitos, culturas, pesquisando bem se acha, constrói-se, aumenta-se os horizontes que temos como pessoas, mas na maioria das vezes, na maçante maioria das vezes, isso não acontece, é o paradoxo definidor de nosso tempo: quanto mais informação se tem, e acesso à elas, de inúmeros pontos de vista, mais o ser humano se limita, mesmo! Não sei bem quando isso começou, mas em algum momento a velocidade com que as informações chegam se misturou com a velocidade de raciocinar! Refletir então, palavra quase em desuso. 

Nós passamos pelas notícias, passeamos por uma mar de vitrines e produtos, engolimos conceitos sem mastigar, tudo automático, robótico que transforma as pessoas em uma massa que desistiu de usar as sinapses para aquela atividade fundamental que nos difere do resto de todos os outros animais: a de ter consciência, de decidir o que se quer ser, se vai ou se fica, se 2+2 ou ler Machado. Os pensamentos da massa têm a mesma intensidade e velocidade de um dado jogado na rede, se você piscar perde de vista. 

O que passamos a enxergar é uma repetição, um padrão de comportamento que não mais vive, se apressa, não reflete, opina sem ao menos saber sobre o que anda falando, e que parece ter esquecido de argumentar. É que o tempo virtual também transformou a todos em trolls monumentais, gigantescos monstros saídos dos mais terríveis contos de fadas protegidos pela capa de invisibilidade que a tecnologia proporciona. É uma guerra diária de violência verbal, mesmo que mal conjugada, de trogloditas destemidos e ferozes disseminando ódio através de ideias que nem deles são, baseadas em ideais antigos que mesmo em desconformidade com a sociedade em que vivemos, um dia teve uma base teórica sólida da qual os monstros digitais aproveitam a poeira, porque na velocidade da vida não se tem tempo de ler, só de passar os olhos e ligar a metralhadora: PÁ viado, PÁ abortista PÁ puta, PÁ socialista, PÁ corrupto, PÁ crente sem vergonha, PÁ favelado, PÁ preta vadia e tantos outros tiros. 

Se houvesse um blackout mundial, se todas as redes saíssem do ar, o que você teria pra contar depois de passado o pânico inicial? Quantos livros teria lido? Quanto teria produzido de bom? Quantos amigos reais teria? Pergunto-me muito sobre a possibilidade, a estranha possibilidade, de um dia sermos obrigados a ter contato direto uns com os outros de novo, sem uma tela nos separando. Um dia eu sonhei que isso acontecia, mas eu havia esquecido como falar. Foi amedrontador, e a sensação ruim não passou depois de acordar e perceber que no andar veloz que o tempo vai, um pesadelo ruim pode vir a ser realidade.

quarta-feira, novembro 4

As coisas mais bonitas do mundo

- Qual é o seu sonho? 

Os olhinhos pequeninos estavam iluminados de expectativa e ela esfregava a sola do pé direito no piso de madeira, sentindo o contato da cera na pele dos dedos. 

-Humm... Meu sonho? 

- É papai! O sonho! mas o maior sonho, o sonhão! - ela segurou uma das mãos grandes e ásperas entre as suas pequeninas e suaves, de quem não as tinha utilizado muito ainda na vida. 

- Posso contar o meu? - sussurrou baixinho - você não conta pra ninguém? Promete?

- Prometo - disse o pai estendendo o dedo mindinho para o pacto sobrenatural.

-Quero ver as coisas mais bonitas do mundo! Do mundo todinho!

E ela abriu os bracinhos abarcando o mundo e de repente ele coube todinho dentro do abraço dela, e o pai sorriu o sorriso que só reservava pra filha, aquele que transbordava de amor e rodopiou com ela pela sala, a felicidade enchendo o ambiente em gritinhos de alegria até pararem em frente um espelho meio embaçado, que costumava refletir as bebidas em ângulos vários e estava encostado para se ir junto com a mudança.

E a pequenininha se viu olhando para si mesma, toda magrela, o joelho esquerdo ralado, o vestido amarelo amassado e o cabelo desgrenhado de um dos lados do rosto, e viu os joelhos do pai atrás dela, e viu quando ele se agachou e disse "as coisas mais bonitas do mundo estão em você" e viu os olhinhos se encherem de lágrimas mesmo não sabendo que se podia chorar sem estar triste, e mudou de sonho, um sonho secreto que só  ficaria dentro dela, que o papai visse as coisas mais bonitas do mundo para sempre refletidas dentro dela.

Desculpa

Queria te contar de um livro que li, sobre uma passagem em que o narrador vai visitar a sepultura de um parente querido no Japão, e como ele conta ser um costume se desculpar, diante da sepultura, pelo tempo que se ficou sem ir até la.

 Sabia que nunca passou pela minha cabeça de pedir desculpas por não ter ido te visitar? Por não saber como anda a sua, se alguém está colocando flores, sempre achei uma das coisas mais tristes aquelas sepulturas esquecidas com suas flores mortas atestando o descaso.

Você me desculpa? Por não deixar a pedra brilhando, por não colori-la com todas as cores das flores, por não saber se tem poeira acumulada naquela foto pequenina que retrata você? Você me desculpa? Por que eu não me desculpo, pai.

Nós conversamos todos os dias, ninguém me conhece mais que você, mas eu nunca vou saber se ficou triste por eu não ter ido lá todos esses dias, meses, anos... Eu sei que você já deve ter me desculpado, talvez você até não tenha se importado, você pode dizer que a gente já conversa todos os dias e isso é o que importa, mas mesmo que você diga eu não vou ouvir.

Então me sobrou só essa culpa, só essa vergonha doída no fundo do peito, de imaginar alguém passando por você e vendo mais um esquecido, como eu via os túmulos de flores secas.

Desculpa, Desculpa, desculpa.


sábado, outubro 31

A menina triste - uma história de mim mesma

Desde que me entendo por gente eu inventava ser outras pessoas, situações e sonhos que eram mais realidade que sonhos. Achava que estava tudo ok em fugir do que eu realmente era e criar universos alternativos onde eu fosse mais legal, bonita, extrovertida e reconhecida. Era meu mundo próprio de ser várias e conversar sozinha com as outras várias pessoas com quem eu não tinha coragem de trocar uma palavra no mundo real. Na fantasia eram todas minhas amigas e eu era especial.

A verdade é que sempre fui muito sozinha e ainda sou, a diferença é que com o tempo eu parei de conversar com quem eu queria ser e comecei a prestar mais atenção em quem sou de verdade. O primeiro impacto dessa perspectiva real não foi muito bom. Primeiramente porque se algum dia eu quisesse ser parecida com os desejos de sucesso que eu imaginava, teria que conversar e eu nunca fui muito boa nisso. Se me dessem uma folha em branco eu poderia criar universos inteiros. Se me dessem um histórico de quem eu realmente sou eu travava, às vezes ainda travo.

Tudo isso acontece porque a fantasia na maioria  das vezes não pode virar realidade, eu não poderia me transformar em outra pessoa, acordar com outra cara e outro temperamento, quando eu acordei tive que lidar com o impacto de ser eu. Isso aconteceu depois da morte do meu avô, que coincidiu com o final do ensino médio e todo um horizonte de possibilidades na minha frente. Existia então uma pressão criada por mim mesma de descobrir o que eu viria a ser, que profissão seguiria, que escolhas tomaria e eu achava tudo tão difícil e  ao mesmo tão ilimitado que passei, mesmo que inconscientemente, a adiar o futuro. As horas continuavam a correr pelo relógio, a terra fazia sua rota ao redor do sol sem nem reparar que eu havia parado. O mundo continuou mas eu não.

Como era tudo muito vazio, eu comecei me achar muito incompetente para me preencher e pior ainda para ser útil para os outros. Foi quando surgiu uma depressão muito severa em que a melhor saída parecia ser deixar de existir. Eu que antes queria ser várias de repente não queria ser mais nada porque a conclusão fática era que meu corpo e o que eu passava para as pessoas eram um tormento. Comecei uma faculdade de direito em 2010 que até hoje não terminei porque me apavora demais o que irá acontecer depois dela. Passo pelas coisas, pelas pessoas e pelos dias existindo sem tentar viver.

A primeira vez que tive um apagão  não lembro nem do que aconteceu depois que acordei, só sei que deixou minha família assustada suficientemente para procurar um psiquiatra e desde então comecei a vagar de um profissional para outro que me enche de remédios e a ocasionalmente tentar "desesistir". Teve uma época que as pessoas do hospital já sabiam quem eu era e eu podia falar até quem eram os enfermeiros de plantão, e apesar de tudo, de ter parado de viver, eu percebi que as pessoas que me amavam não aceitavam me perder, mesmo não valendo nada.

Então ao invés de continuar parada eu tentei procurar um propósito que ainda não encontrei, mas sei que esttá por aí. Percebi também que eu valia muito para quem estava por perto e me conhecia de verdade, e que além de me amar incondicionalmente elas me admiravam pelo que eu conseguia passar quando estava acordada o suficiente para viver. Não posso falar que me transformei ou ressurgi, eu ainda estou chafurdando as cinzas e a depressão é uma visita que não vai embora fácil, mas eu descobri que olhando pela ótica quem nos ama, percebemos como nossa vida é valiosa e bonita e que pode ser boas se a gente tentar de verdade.

Também não posso dizer que comecei a tentar, eu faço tentativas de tentar mas o sono ainda é mais forte, talvez existam receitas e orações para levantar dos "mortos" que não seja na forma de um zumbi que só faz o caminho cozinha-cama-banheiro-cama, eu não conheço nenhuma, mas sei que existem, e que um dia vou conhecer ou inventar.

Outra coisa que eu descobri é que tudo que habita essa terra é importante demais. Tudo, todos, plantas, pessoas, carros e cachorros, tudo é fruto de uma força tão poderosa que nos impeliu a viver e sentir, talvez os únicos seres conscientes de que sentem em quilômetros luz de distância. Não acho que seja uma coincidência, acho que é uma benção e sou feliz e agradecida por fazer parte disso.

sexta-feira, outubro 9

O vício


Eu me achava intocável em relação à dependência química, pensei que poderia parar a hora que eu bem entendesse. Fumava e sempre pensava ok, esse pode ser último, mas o último nunca chegava. Até que parei, e passados dois dias eu já estava estressada, com raiva de tudo e todos e sentindo uma falta absurda daquele veneninho que eu inalava pensando que era mais forte que ele.

Quando pessoas entendidas do assunto falam que o cigarro causa dependência, ACREDITE, ele causa, e muita. É muito difícil parar quando aquela coisinha te traz, mesmo que de forma "oculta" um bem estar que só vai gerar mal estar futuro. A sensação de tranquilidade que ele traz é maravilhosa mesmo quando estamos cansados de saber dos riscos. 

Muita gente assume o mal inconscientemente como algo que nunca vai atingi-las, da mesma forma que eu pensei que não ficaria viciada. Cigarro é uma grandiosíssima porcaria e eu tenho vergonha por ter me deixado envolver por algo tão sujo. 

É difícil parar, requer mais que força de vontade. É preciso paciência e contar todas as horas que você conseguiu passar sem ele para acreditar que conseguirá passar mais uma, e mesmo quando há o desejo sincero de se livrar daquilo, a dor de cabeça e a raiva que a abstinência causam tentam nos empurrar para ele novamente. Além de tóxico ele é um sedutor, daqueles baratos e cafajestes. Não nos deixemos seduzir! 

Então eu li uma matéria que falava sobre o vício e que deixava algumas perguntas para o leitor sobre como o cigarro age em sua vida, e são elas que eu vou responder agora.

Como começou a fumar? No aniversário de dezoito anos de um amigo. Nós nos achamos adultos e invencíveis, podíamos fazer uma bobagem como dividir um cigarro sem que isso fosse nos dar prejuízos

Em que circunstâncias? O cigarro era como um grito de liberdade. Olhem pra mim, estou fumando, eu posso fazer isso!

O que fez você  continuar  fumando por tanto tempo? O vício. E também porque as pessoas que admiro (escritores, artistas, filósofos, todos fumavam. Era como se o cigarro me colocasse nesse grupo).

O que o cigarro te traz? Absolutamente nada

Como está sua vida independentemente do cigarro? Tenho depressão, fobia, ansiedade crônica. Não é a toa que continuei por tanto tempo

Como estão teus relacionamentos? As pessoas que me amam dão força pra que eu pare. Muita. Eles perceberam minha dependência antes de mim

Que objetivos tem para si? Ter uma carreira consolidada e reconhecida, que meu relacionamento perdure, que daqui alguns anos eu possa me sentir realizada

Sente-se feliz? Na maior parte do tempo não. E fumar me deixa de mal comigo.


Apesar de tudo isso parar ainda é uma dificuldade. Consigo por alguns meses e volto, depois consigo por mais uma semana e volto. Pretendo atualizar esse texto ainda este ano falando que me livrei completamente.



A nicotina é encontrada em todos os derivados do tabaco.
É uma droga que age estimulando o sistema nervoso central, fazendo com que ele funcione de maneira acelerada.
Ao inalar a nicotina, através da fumaça do cigarro, ela é absorvida pelos pulmões e rapidamente atinge o cérebro pela corrente circulatória.
No cérebro a nicotina estimula a liberação de uma substância chamada Dopamina, que proporciona imensa sensação de prazer e bem estar ao fumante.
Por esse motivo é que o fumante ao tentar parar de fumar se ressente da falta de Dopamina, da sensação de bem estar na vida.
Esse trajeto da inalação até a liberação de dopamina, dura entre 7 a 19 segundo, tempo somente equivalente à ação da cocaína e heroína  no cérebro.
Cada vez que os níveis de dopamina começam a cair na corrente circulatória, imediatamente o fumante acende um novo cigarro, sem se dar conta do ato automático, mantendo  sua sensação de bem estar, estando instalada a dependência de nicotina.
Fonte: ROSEMBERG, 2003;INCA; OMS